Mudanças no cenário de parto

Até o final do século XIX os partos ocorriam, em sua grande maioria, nas residências das gestantes e eram assistidos por parteiras e acompanhantes – majoritariamente femininas – que pertenciam ao núcleo familiar ou comunidade local. No entanto, com o avanço da medicina moderna, a institucionalização do parto em ambientes hospitalizados acarretou a utilização de intervenções no corpo da mulher para acelerar o nascimento. O parto deixou de ser visto como um evento natural, fisiológico e passou a ser centrado na figura do médico. 

A partir da Segunda Guerra Mundial (começo da década de 1940), o processo de parturição foi totalmente institucionalizado, sendo incorporados na rotina hospitalar protocolos intervencionistas pela maioria dos profissionais de saúde. Em decorrência desse fenômeno, procedimentos médicos desnecessários são aplicados de forma abusiva nas parturientes, sem o seu consentimento ou direito de entender a real necessidade de tais intervenções – o que hoje se configura como casos de violência obstétrica, devido aos traumas físicos e psicológicos. Ademais, o parto tornou-se mérito exclusivamente da equipe médica responsável,  roubando o protagonismo da mulher nesse momento tão especial.

Reivindicação pela escolha do parto domiciliar

Com a maior popularização das pautas feministas, a reivindicação de mulheres pelo direito ao controle do seu corpo evidenciou os anseios das gestantes em terem um parto mais humanizado possível, com seus desejos respeitados, protagonismo garantido e na presença do acompanhante escolhido por ela. Logo, a escolha da via de parto domiciliar vem aumentando entre as futuras mães.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), assim como a Federação Internacional de Ginecologistas e Obstetras (FIGO) reconhecem o direito de escolha do local de parto pelas mulheres e os benefícios do parto domiciliar quando assistido por profissionais habilitados. Em 1996, a OMS publicou o documento “Assistência ao Parto Normal: um guia prático – Relatório de um grupo técnico”, que apresenta recomendações baseadas em dados científicos sobre as práticas relacionadas ao parto menos institucionalizado possível, objetivando garantir os direitos das mulheres, promover mudanças no cenário de intervenções desnecessárias, questionando procedimentos realizados sem evidências científicas ou de rotina. Tal relatório também contém pautas sobre o parto domiciliar e suas vantagens. No Brasil, essas recomendações foram publicadas pelo Ministério da Saúde em 2000.

Benefícios do parto domiciliar

Com o planejamento e acompanhamento correto, pode-se destacar uma série de benefícios oferecidos na escolha do parto domiciliar:

  • Ambiente acolhedor para a parturiente;
  • Respeito aos desejos da gestante;
  • Garantia do protagonismo da mulher;
  • Liberdade nas escolhas dos acompanhantes;
  • Intervenções médicas reduzidas;
  • Liberdade para a escolha de posições;
  • Liberdade para a escolha de práticas terapêuticas (músicas, óleos essenciais, iluminação, entre outros);
  • Liberdade para se alimentar e se hidratar; 
  • Favorecimento da dilatação, relacionada com o relaxamento e capacidade de entrega da parturiente;
  • Redução de chances de infecção por bactérias hospitalares (para a mãe e bebê).

Desafios a serem enfrentados

Embora a opção pelo parto domiciliar tenha crescido no Brasil, a prática de nascimentos cirúrgicos ainda é predominante entre gestantes, e a escolha por essa via de nascimento se dá na sua grande maioria pela falta de conhecimento e comodidade do que por real necessidade. Segundo estudos mais recentes da OMS, cerca de 55% dos partos realizados no país são via cesárea; e dentro dos 45% restantes, apenas 2% são domiciliares. Portanto, a discussão acerca de um processo de parturição residencial ainda precisa crescer, rompendo com alguns tabus e mitos, tanto entre segmentos da sociedade quanto na área da saúde.

Outra problemática do parto domiciliar é seu limitado alcance. Infelizmente, sua realização adequada ainda é restrita para uma parte elitista no Brasil; em áreas periféricas ou do interior, costuma-se realizar o parto em residências, mas com assistência precária ou nula. Sendo assim, ativistas e órgãos de saúde no Brasil discutem sobre o reconhecimento do parto domiciliar pelo SUS, para que todas as mulheres do país tenham direito à escolha desta via de parturição.

Ressalta-se que, apesar dessa via de parto ocorrer em residências, ainda é preciso ter certo acompanhamento. Os principais órgãos de saúde recomendam que a equipe responsável seja multidisciplinar e contenha pelo menos dois profissionais, podendo variar entre Doula, enfermeira(o) obstétrica(o) e  médica(o) obstétrica(o). Assim, a segurança da mãe e do bebê é garantida.

Fontes:

Bebê Abril <https://bebe.abril.com.br/

parto-e-pos-parto/parto-domiciliar-considerar-antes-fazer-escolha/> ; Revista Brasileira de Enfermagem <https://www.scielo.br/

scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672018000901247&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt> ; Tão Feminino <https://www.taofeminino.com.br/

gravidez/parto-domiciliar-planejado-gestacao-baixo-risco-privacidade-e-conforto-para-a-mulher-s2052291.html> ; Ministério da Saúde <https://bvsms.saude.gov.br/>

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